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Desequilíbrio entre modais pressiona logística em SP

Debate no Crea-SP aponta demanda por soluções integradas e qualificação profissional como fatores-chave para superar gargalos históricos

O Estado de São Paulo enfrenta o desafio de expandir sua capacidade logística sem repetir a histórica dependência do transporte rodoviário — um desequilíbrio que encarece operações, pressiona a infraestrutura e compromete a eficiência em uma economia que responde por mais de 30% do PIB brasileiro. O tema orientou os debates do palco Logística e Mobilidade durante o Fórum de Infraestrutura e Políticas Públicas e o Colégio de Inspetores 2026, realizados no fim de março.

Ao longo das discussões, especialistas e gestores públicos defenderam maior articulação entre modais, planejamento de longo prazo e formação de profissionais como pilares para sustentar o atual ciclo de investimentos. No painel sobre rodovias e ferrovias, o diagnóstico foi de um desequilíbrio histórico: enquanto a malha rodoviária se expandiu de forma acelerada nas últimas décadas, a ferroviária permaneceu praticamente estagnada, com impactos diretos sobre custos, pressão da infraestrutura e eficiência logística.

Nesse contexto, a multimodalidade foi apontada como condição indispensável para reverter o quadro. “Não existe outra maneira de crescer sem multimodalidade”, disse o engenheiro Guilherme Del Nero Fiorellini, gerente regional do Crea-SP.

Representantes do setor privado destacaram que projetos em curso já incorporam a integração entre diferentes sistemas de transporte como estratégia para ampliar a eficiência logística e acompanhar a expansão urbana. Concessões e parcerias com a iniciativa privada também foram apontadas como instrumentos centrais para viabilizar investimentos e acelerar a modernização da infraestrutura.

No campo estratégico, o painel Planejamento e avanço logístico do Estado de São Paulo apresentou as diretrizes do Plano de Logística e Investimentos (PLI), estruturado para orientar decisões até 2050 e enfrentar gargalos históricos da infraestrutura. A proposta parte de um diagnóstico da estrutura atual e avança para a simulação de cenários com base em dados e na articulação entre diferentes atores.

Denis Gerage Amorim, subsecretário de Logística e Transportes do Estado de São Paulo

A lógica é priorizar projetos com maior impacto econômico, social e ambiental, superando intervenções pontuais e estruturando um sistema de transporte mais integrado. “É essencial que o Estado de São Paulo avance de forma consistente no planejamento, com uma visão sistêmica e em rede, para garantir segurança jurídica e atrair os parceiros privados necessários para tirar os projetos do papel”, pontuou Denis Gerage Amorim, subsecretário de Logística e Transportes do Estado de São Paulo.

A complexidade da operação logística ficou evidente na discussão sobre o Porto de Santos. Responsável por 29,6% das transações comerciais do Brasil com o exterior, o complexo opera sob alta demanda e múltiplas variáveis, que vão desde condições climáticas até restrições operacionais. Nesse contexto, a dependência do transporte rodoviário para acesso ao porto aparece como um dos principais entraves, ao lado da necessidade de incorporar tecnologias que ampliem a eficiência da operação.

Além dos aspectos estruturais, a formação de profissionais foi apontada como um gargalo crítico. A dificuldade de encontrar mão de obra qualificada para atender ao volume crescente de projetos, especialmente em áreas técnicas e de execução, tende a se intensificar com o aumento da complexidade das obras e o maior uso de tecnologia. O cenário reforça a necessidade de inovação, atualização constante e maior conexão entre formação e prática.

O conjunto das discussões aponta que o desafio logístico de São Paulo não será resolvido por um único projeto ou modal, mas pela construção de um sistema integrado, com visão de longo prazo e capacidade de adaptação — condição considerada essencial para sustentar o crescimento econômico do estado e reduzir o chamado “custo Brasil”.

 

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